TENHO TUDO PARA ESTAR BEM… ENTÃO PORQUE NÃO ME SINTO FELIZ?
A verdade por trás do mal-estar silencioso que tantas pessoas carregam
TENHO TUDO PARA ESTAR BEM… ENTÃO PORQUE NÃO ME SINTO FELIZ?
A verdade por trás do mal-estar silencioso que tantas pessoas carregam
Às vezes não é falta de gratidão.
É cansaço de ter que ser forte todos os dias.
É um vazio que ninguém vê, mas que pesa por dentro.
É a saudade de algo que nunca aconteceu.
E uma vontade enorme de ser abraçado sem precisar pedir.
Por vezes, olhamos à nossa volta e parece que temos tudo: uma casa, filhos, alguém ao nosso lado. Mas por dentro, algo dói. É um vazio que não se explica, uma sensação de solidão no meio do barulho da vida.
Este vazio não é ingratidão. É a voz de uma criança que um dia existiu dentro de nós – e que nunca foi ouvida. Uma criança que cresceu sem abraços, sem elogios, sem espaço para brincar. Uma criança que aprendeu cedo que precisava fazer para merecer, cuidar dos outros para não ser abandonada.
Quando a infância deixa marcas invisíveis
Este padrão não surge do nada. Muitas vezes, tem origem em histórias onde houve ausência emocional, falta de afeto consistente, troca de papéis (a criança a assumir responsabilidades que não eram suas), abandono e até maus-tratos.
Nestes contextos, a criança desenvolve estratégias para sobreviver: suprimir sentimentos, agradar aos outros, procurar aprovação externa. Mais tarde, isso dá origem ao que Jeffrey Young descreveu como esquemas precoces desadaptativos – padrões internos que moldam a forma como interpretamos a vida adulta. Esquemas como privação emocional (“ninguém vai cuidar de mim”), abandono (“as pessoas acabam sempre por se afastar”) ou subjugação (“as minhas necessidades não importam”) são frequentes nestas histórias (Young, Klosko & Weishaar, 2003).
Para sermos aceites, aprendemos a criar uma versão adaptada de nós mesmos. Winnicott chamou-lhe falso self (1960): uma máscara relacional construída para agradar, mas que esconde as nossas necessidades genuínas. Com o tempo, este falso self pesa. Porque viver para corresponder não é o mesmo que viver em autenticidade.
Hoje, essa criança habita um adulto que parece ter tudo para estar bem, mas carrega um peso silencioso. E quando a rotina e as responsabilidades afastam os momentos de presença e encontro, esse peso aumenta. Porque a ausência do presente toca na ferida antiga: “Não sou importante. Não sou suficiente.”
A máscara da suficiência e o preço de ignorar emoções
Vivemos numa cultura que valoriza o “ter” e o “fazer” acima do “ser” e do “sentir”. A mensagem implícita é clara: se tudo parece certo por fora, então não deveria haver espaço para sofrimento por dentro. Mas a realidade é outra.
Quando escondemos o que sentimos para corresponder às expectativas sociais, pagamos um preço elevado. Como refere Brené Brown (2012), “Não se pode desligar seletivamente a emoção. Quando entorpecemos as emoções difíceis, entorpecemos também as positivas” (p. 88). Isto significa que, ao fugir da tristeza, da raiva ou do medo, desligamos também a alegria, a vitalidade e a capacidade de nos sentirmos realmente vivos.
O resultado? Uma vida aparentemente funcional, mas emocionalmente “achatada”, onde reina a desconexão. E é precisamente essa falta de autenticidade que alimenta o vazio.
Quando a vida por fora não combina com o que sentimos por dentro
Ter tudo para estar bem e, ainda assim, sentir um vazio não é um sinal de fraqueza. É, muitas vezes, a consequência de uma dissonância interna: aquilo que mostramos ao mundo não coincide com aquilo que sentimos.
Esta incongruência pode ser explicada por teorias como a dissonância cognitiva (Festinger, 1957) e pelo conceito de falso self, proposto por Winnicott (1960), que descreve a adaptação às expectativas externas em detrimento das necessidades internas. Quando vivemos demasiado tempo numa versão “aceitável” para os outros, perdemos a ligação com a nossa autenticidade.
E quando isso acontece? O corpo e a mente enviam sinais. Muitas vezes, este mal-estar manifesta-se como tristeza, apatia ou uma sensação difusa de que “algo não está certo”. Carl Jung expressou esta realidade de forma poética: “A depressão é como uma senhora vestida de negro. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um lugar e ouça o que ela tem a dizer” (Jung, 1961, p. 152).
O desconforto, por mais incómodo que pareça, é um convite à escuta. Uma oportunidade de parar, olhar para dentro e perguntar: “O que me falta para viver de forma mais verdadeira?”
O corpo fala antes da mente compreender
Muitas vezes acreditamos que conseguimos “controlar” as emoções apenas pelo pensamento, mas a verdade é que o corpo tende a manifestar sinais de sofrimento antes mesmo de os reconhecermos.
Segundo Gabor Maté (2022), esta desconexão entre mente e corpo está frequentemente associada a experiências adversas ou padrões relacionais que nos ensinaram a suprimir emoções para sermos aceites. Mas ignorar esses sinais tem um custo elevado: ansiedade persistente, fadiga emocional ou até sintomas físicos que não conseguimos explicar.
Maté (2022) lembra-nos: “A nossa necessidade mais profunda é sermos vistos, ouvidos e compreendidos — especialmente por nós mesmos” (p. 103). Quando vivemos desligados daquilo que sentimos, a vida pode parecer funcional por fora, mas internamente carregamos um peso invisível.
Por isso, em vez de tentar calar o desconforto, experimente perguntar: O que é que o meu corpo está a tentar dizer-me que a mente insiste em ignorar?
Um vazio que não se preenche com mais coisas
O vazio de que falamos não desaparece com mais conquistas, mais tarefas ou mais distrações. Ele só começa a sarar quando paramos. Quando nos sentamos connosco, em silêncio, e damos voz à dor que ficou calada durante anos.
Quando conseguimos dizer, com verdade: “Eu mereço ser cuidado(a). Eu importo, mesmo quando não estou a fazer nada.”
Esse é o primeiro passo para a reconexão. Significa acolher a nossa criança interior, desmontar as máscaras do falso self e desafiar os esquemas que nos mantêm presos a padrões que já não nos servem.
É um trabalho profundo — mas possível. E, muitas vezes, é esse caminho que devolve à vida aquilo que ela tem de mais essencial: significado, conexão e verdade.
Daniela Santos ❤️
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Referências Bibliográficas
Brown, B. (2012). Daring greatly: How the courage to be vulnerable transforms the way we live, love, parent, and lead. Gotham Books.
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. Stanford University Press.
Frankl, V. (2006). Man’s search for meaning. Beacon Press.
Jung, C. G. (1961). Memories, dreams, reflections. Vintage.
Maté, G. (2022). The myth of normal: Trauma, illness, and healing in a toxic culture. Avery.
Winnicott, D. W. (1960). The maturational processes and the facilitating environment. Hogarth Press.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: A practitioner’s guide. Guilford Press.