NEM TODO O AMOR É AMOR. ÀS VEZES, É TRAUMA.
Como a violência vivida na infância distorce a perceção do amor e afeta a autoestima, os limites e os relacionamentos futuros. Um olhar sensível e psicológico sobre uma pergunta feita por uma jovem que normalizou o abuso.
NEM TODO O AMOR É AMOR. ÀS VEZES, É TRAUMA.
“Porque é que é tão grave que o meu namorado me bata, se o meu pai também me bate?”
Esta pergunta, de uma simplicidade brutal, é um grito silencioso de confusão, abandono e de uma aprendizagem enraizada na violência.
Interpela-nos a todos — enquanto profissionais, enquanto sociedade e, acima de tudo, enquanto seres humanos. Porque nos obriga a olhar para o que tantas vezes é escondido: as marcas invisíveis da violência que começa onde o amor devia ser mais seguro.
Quando o amor magoa desde cedo
Quando o agressor é o próprio pai — alguém que deveria representar proteção, cuidado e segurança — a vítima cresce com uma referência profundamente deturpada do que é amor. O que devia ser um porto seguro transforma-se numa ameaça constante. A violência é normalizada, justificada ou silenciada, e essa normalização distorce de forma profunda a perceção do mundo, das pessoas e das relações.
Esta distorção instala-se cedo. Tão cedo que, muitas vezes, a pessoa nem se apercebe de que vive num contexto violento — apenas assume que “é assim que se ama”.
E pode durar uma vida inteira.
A jovem cresce com dificuldade em confiar, em entregar-se, em sentir-se segura. Aprende que o amor pode doer, que o afeto pode vir acompanhado de medo, que o “não” não é respeitado — e por isso, muitas vezes, nem chega a ser dito.
As marcas invisíveis da violência
Estas vivências comprometem a autoestima, o sentimento de valor pessoal e a perceção de merecimento.
A pessoa pode desenvolver a crença inconsciente de que não é suficientemente boa para ser amada sem se anular, sem ceder, sem aceitar o inaceitável. Cria-se um enviesamento profundo sobre o que é o amor — confundido com agressividade, controlo, ciúme ou dependência. E este enviesamento torna-a mais vulnerável a entrar (e a permanecer) em relações abusivas.
Como dizia Alice Miller, a criança não deixa de amar os pais que a ferem — aprende, isso sim, a deixar de amar partes de si para continuar a ser aceite.
E muitas vezes, continua a repetir esse movimento ao longo da vida, anulando-se em nome de um “amor” que só conhece dor.
É um paradoxo doloroso: querer muito ser amada e, ao mesmo tempo, ter medo da proximidade.
Desejar intimidade, mas fugir quando ela acontece.
Analisar tudo, racionalizar, proteger-se.
Ser forte demais por fora, e insegura por dentro.
Em alguns casos, a capacidade de amar e de se deixar amar fica bloqueada.
Não por falta de vontade — mas porque a dor, a vergonha e a desconfiança falaram mais alto durante demasiado tempo.
A importância de escutar — e intervir
É por isso que o papel da escola, da comunidade e dos profissionais de saúde mental é absolutamente vital.
Ações de sensibilização sobre violência doméstica não são apenas iniciativas educativas. São, para muitos jovens, uma porta de saída.
Uma oportunidade de reconhecer que o que viveram não é normal.
Que o que sentem tem nome.
E que há vida para além da dor.
As palavras certas, no momento certo, podem abrir espaço para a consciência. E a consciência é o primeiro passo para a mudança.
Porque o amor, o verdadeiro amor…
Não fere.
Não exige silêncio.
Não se prova com medo.
Não nos obriga a desaparecer para sermos aceites.
O amor verdadeiro vê, respeita, cuida, permanece.
E todos merecemos esse amor.
Como Gabor Maté nos lembra, não é o que nos acontece que nos marca mais profundamente, mas aquilo que acontece dentro de nós como resultado do que vivemos.
E é aí que a cura começa — quando deixamos de aceitar o sofrimento como forma de ligação.
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